A quem interessa o outubro rosa?

Encontrei um nódulo na mama direita aos 17 anos de idade. Fiz o autoexame no banho porque tinha ouvido muitas vezes como essa prática era importante e quase morri de susto quando encontrei uma bolinha. Enrolada na toalha, sai pela casa procurando minha mãe pra perguntar se era mesmo um caroço. Ela também se assustou e corremos para o médico. Médico, ultrassom, outro médico, outro ultrassom, mamotomia. Com MUITA, MUITA ansiedade, medo, pânico e terror a cada procedimento e nos intervalos.

Para quem nunca ouviu falar em mamotomia, trata-se de um procedimento “pouco invasivo” (faz-me rir) que permite coletar material do nódulo para a biópsia e descobrir se ele é benigno ou maligno. Passam uma pomadinha pra anestesiar a pele, depois enfiam uma agulha fininha no seu peito pra dar anestesia local, depois ficam passando aquela coisa do ultrassom com força pra poder ver bem o nódulo e enfiam uma agulhona no peito que vai cortando e sugando pedacinhos do nódulo. Sinceramente, achei bem invasivo. E doeu bastante. E fiquei com uma pequena cicatriz. E quase enlouqueci durante a semana em que esperava o resultado da biopsia. Ah, esqueci de mencionar o questionário que respondi antes do exame! Dentre outras pérolas, me perguntaram se eu JÁ fazia quimio ou radioterapia. Eu, sempre fofa (só que não), respondi que AINDA não fazia. Foram dias terríveis em que eu pensava no meu câncer precoce e usava protetor solar pra não ter câncer de pele, afinal, eu já tinha câncer de mama. Exageros meus a parte, saiu o resultado: fibroadenoma juvenil. Volto ao médico e recebo a feliz notícia de que estava tudo bem e o nódulo era benigno. Ufa! Ainda bem que não era nada!

Com o passar dos anos me perguntei muitas vezes o que tinha sido aquele “nada”. Eu deveria agradecer às campanhas pelo autoexame, à medicina e à tecnologia por ter me livrado do perigo? Mesmo que eu não estivesse em perigo? E a pergunta central, na minha opinião, nenhum médico fazia. Por que, afinal, meu corpo produziu aquele nódulo? Sozinha, conclui que tinha a ver com o modo como vivi a morte do meu pai. Fui pra terapia, comecei a exercitar o “colocar pra fora” e achei que tinha me livrado dos nódulos.

Três filhos depois, decido ligar trompas. Vou a um médico que pede uma série de exames de rotina, dentre os quais, um ultrassom de mama. Voilà! Outro nódulo! Dessa vez na mama esquerda. Demoro quinze dias pra buscar o resultado do exame e mais quinze dias pra tirá-lo da bolsa. Peço pra Bruna (enteada, amiga querida, e médica) pra dar uma olhada no exame pra mim. Ela arregala o olho depois de ver a tal da birads 4. Pelo que eu entendi, classificam os nódulos de 1 a 5 quanto à aparência de câncer: 1 significa “relaxa que não é câncer” e 5 significa “grandes chances de ser câncer”. O meu ganhou 4 estrelinhas. Será que esse ultrassom foi bem feito? O médico considerou que ainda amamento? Melhor procurar um mastologista e repetir o exame.

Botão de pânico acionado mais uma vez. Marca com o mastologista, outra consulta, outro ultrassom, outro diagnóstico com 4 estrelinhas, mamografia e… outro pedido de biópsia! PQP! De novo? Além da sensação de que minha vida sempre tem interrupções bruscas, cresceu um sentimento de indignação por estar passando por aquilo de novo. Eu não tenho nenhum outro sintoma além do caroço. Não há histórico de câncer de mama na minha família. Minha mãe e minha avó já tiraram nódulos do peito. E eu SEI que não estou com câncer. Eu sei que está tudo bem. Eu sei.

Só de pensar na angústia toda de novo, na logística para lidar com trabalho, filhos e exames, no preço da tal da biópsia (porque gasto uma baba de plano de saúde, mas ele não cobre um médico “confiável”) já devo ter causado muito mal ao meu corpo! Passei por uma consulta espiritual, por uma sessão de acupuntura, por uma sessão de terapia e por conversas com muitas amigas e decidi que não vou fazer biopsia agora. Vou pra um tratamento com florais e acupuntura durante 3 meses, e aí repito o ultrassom. A ideia, na medicina tradicional chinesa, é reequilibrar o corpo para não produzir mais nódulos e, quem sabe, diluir esse carocinho. Vou pra segunda sessão de acupuntura na semana que vem, confiante que em 3 meses não vou ter mais nenhum nódulo. Mas, se ele estiver aqui, lá vou eu pra outra biopsia e pra outro diagnóstico de fibroadenoma. Pra sair com aquele alívio “ufa! ainda bem que não era nada”.

Isso tudo entre setembro e o início de outubro, quando começa o  Outubro Rosa. Segundo a Bruna Silveira e a Simone Rocha, médicas de família e comunidade e amigas em quem confio plenamente, diversas evidências científicas  apontam que muitas mulheres que terão um positivo na mamografia (tipo eu) não desenvolveriam a doença (tipo eu), ou a doença não causaria sua morte. Os efeitos dessa quantidade de exames podem ser mais prejudiciais que benéficos se a gente pensar na angústia e nos gastos que eles geram.

Não seria melhor, então, só indicar ultrassom de mama e mamografia pra quem de fato é paciente de risco? Autoexame em todas as mulheres interessa a quem?

Só consigo pensar na indústria médica, dos diagnósticos e dos medicamentos se beneficiando com tanto diagnóstico de nódulo de mama…

6 comentários em “A quem interessa o outubro rosa?

  1. Olá Bianca.

    Tenho 23 anos e nos últimos dois meses passei pelos mesmos transtornos que você.
    Estou com a cirurgia marcada pra quarta-feira, 06-05. Contudo, acabo de voltar de um Encontro do Sagrado Feminino e as vivências e trocas me fizeram repensar isso.
    Enfim, cheguei em casa e comecei a procurar enlouquecidamente por mulheres que escolheram terapias alternativas para tratamento e me deparei com seu relato.
    Gostaria de saber se desde sua descoberta e da escolha por esses tratamentos, houve diminuição ou o nódulo desapareceu?
    Ou ainda, se você conhece mais mulheres que optaram por tratamentos que não os convencionais e qual o resultado.
    Enfim, tenho dois dias para tomar essa decisão e toda ajuda é muito mais que bem vinda!
    Gratidão!

  2. Colo abaixo, de forma desordenada, os comentários da postagem no Facebook que enriquecem bastante a conversa:

    Pedro Ancona Lopez Mindlin Bianca, tive recentemente uma conversa semelhante com uma médica sobre câncer de próstata. Ela me disse que havia uma polêmica acerca da varredura generalizada na população masculina em busca desse câncer, pois na maioria dos casos em que está presente…Ver mais
    4 de outubro às 01:11 · Curtir (desfazer) · 6

    Bianca Santana Nossa, Pedro Ancona Lopez Mindlin, é isso pra mim também! Obrigada por compartilhar.
    4 de outubro às 01:12 · Curtir · 3

    Vanessa Rodrigues pensando que aquela máxima de nossos avós de ficar procurando doença e, a partir de aí, ela se materializar faz bastante sentido…
    4 de outubro às 01:13 · Curtir (desfazer) · 2

    Leo Germani Obrigado Bianca
    4 de outubro às 09:44 · Curtir (desfazer) · 1

    Luciana De Melo Guedes Bem Bi, já conversamos muito sobre isso e eu de verdade tenho muitas críticas aos tratamentos e exames. Pra mim é simples, se existe no seu corpo foi vc quem
    construiu. Se construiu tem o poder de destruir….e sigo pensando assim e resolvendo as minhas “doenças”…
    4 de outubro às 09:50 via celular · Curtir (desfazer) · 2

    Deborah Moreira que bom ler isso em meio a essa onda rosa. super concordo que isso é coisa de corporação FDP! Querem deixar a gente paranoica pra gastar o que a gente não tem.
    4 de outubro às 10:30 · Curtir (desfazer) · 2

    Marcella Chartier viva as agulhas (mas só as de acupuntura), os florais, a terapia, a medicina natural, a confiança e a conexão com nosso corpo e a Bianca Santana
    4 de outubro às 11:03 · Curtir (desfazer) · 1

    Amanda Vieira Guarani-Kaiowá Cecilia Santos – achei essa reflexão pertinente…
    4 de outubro às 11:08 · Curtir (desfazer) · 1

    Bárbara Lopes Por uma amiga médica, recentemente conheci o conceito de prevenção quaternária (http://pt.wikipedia.org/…). Quer dizer, também precisamos nos prevenir do excesso de prevenção. Acho que é por aí.

    Prevenção quaternária – Wikipédia, a enciclopédia livre
    pt.wikipedia.org
    Prevenção quaternária é o conjunto de acções que visam evitar a iatrogenia assoc…
    Ver mais
    4 de outubro às 11:19 · Curtir (desfazer) · 3 · Remover visualização

    Cecilia Santos Sei não. O câncer de mama é uma realidade, né? O problema não seria a forma altamente negativa como a doença é tratada?
    4 de outubro às 11:27 · Curtir (desfazer) · 1

    Betina Sarue Coincidência que a publicação embaixo da tua na minha time line é uma propaganda da GE do Brasil: “Participe do outubro rosa”.? rs Gostei muito do texto, Bi.

    4 de outubro às 11:35 · Curtir (desfazer) · 1

    Amanda Vieira Guarani-Kaiowá Cecília Santos – talvez seja isso, a forma negativa, o excesso – esse link aí que a Bárbara Lopes colocou… serve pra ponderar um pouco
    4 de outubro às 11:55 · Curtir (desfazer) · 2

    Bianca Santana Câncer de mama é uma realidade sim, Cecília. Mas não há evidência de que descobrir cedo, como ressaltam as campanhas, melhora ou prolonga a vida das mulheres. E quantas mulheres, como eu, passam por procedimentos invasivos por descobrirem nódulos no au…Ver mais
    4 de outubro às 12:22 · Editado · Curtir · 2

    Cecilia Santos Eu concordo, Bianca, que existe uma patologização desnecessária. Mas acho que isso acontece muito por causa do estigma e do medo da doença. Eu imaginava que o auto-exame seria uma forma de ter um certo empoderamento sobre o meu corpo. Confesso que não …Ver mais
    4 de outubro às 12:53 · Curtir (desfazer) · 3

    Simone Rocha putz, que emoção críticas ao outubro rosa, ao psa e referências ao conceito de prevenção quaternária na mesma conversa!
    4 de outubro às 14:54 via celular · Curtir (desfazer) · 2

    Denise Jardim Bi, esta é conversa é muito importante. Tenho uma amiga gerente de um grande laboratório e segundo as estatísticas deles, o aumento de “pacientes” nos laboratórios triplicou nos ultimos 10 anos. Betina, a GE é a maior fabricante dos aparelhos para exames de mamografia.
    4 de outubro às 17:45 via celular · Curtir (desfazer) · 1

    Simone Rocha Escrevendo um pouco melhor, agora que não é do celular ;p
    As opções de fazer ou não fazer rastreamento (ou seja, procurar doença numa pessoa sem sintoma com a intenção de tratar a doença antes que ela se mostre clinicamente/ dê um sintoma) é razoável e deve ser o quanto mais bem esclarecida melhor. O que me parece mais chato no seu caso, Bianca, é o médico não ter conversado isso com vc, inclusive pq vc não está na população em que há benefício comprovado do exame.
    Pras mulheres, bom mesmo é fazer papanicolau a cada 3 anos (depois de 2 normais consecutivos em 2 anos seguidos). De resto, prevenção mesmo é ter uma vida razoavelmente equilibrada de alimentação, bebidas, festa, alegria, trabalho, exercício físico, isso tudo numa sociedade mais igualitária e menos violenta. E ter acesso a serviços de saúde organizados no caso de se sentir doente, com as tecnologias mais indicadas pra cada caso disponíveis (porque sim, doenças graves existem!).
    Da mamografia a conta é: se 2000 mulheres forem rastreadas regularmente durante 10 anos, uma irá se beneficiar do rastreio, uma vez que irá evitar morrer por cancer de mama. Ao mesmo tempo, 10 mulheres saudáveis, como consequência, serão diagnosticadas com cancer e serão tratadas desnecessariamente. Estas mulheres terão uma parte ou a totalidade da sua mama removida e irão, frequentemente, receber radioterapia e, por vezes, quimioterapia. Além disso, cerca de 200 mulheres saudáveis irão passar por um alarme falso. A tensão psicológica até alguém saber se tem ou não cancer, e mesmo depois disso, pode ser importante. Isso num programa de rastreamento que faça o que está mais claramente estabelecido: mamografia a cada 2 anos a partir dos 50 anos.
    E é difícil mesmo, porque nunca saberemos de quem se evitou a morte, e quem foram as 10 que tiveram a mama retirada sem necessidade e fizeram quimio e radioterapia. Esse tipo de exame (“rastreamento”) só pode ser estudado comparando populações, não indivíduos.
    Bom mesmo pra pensar antes de decidir fazer ou não o exame. Decidir não seguir adiante depois do exame feito (e alterado) é ainda mais difícil. Mas autonomia sobre a própria vida e o próprio corpo também é bom e todo mundo gosta ;-p
    Mas enfim, ta aí, bom motivo pra todo mundo pensar antes de submeter a check-ups…
    6 de outubro às 12:39 · Curtir (desfazer) · 8

    Bianca Santana Mone, publica isso num blog pra poder replicar? E escreve mais e mais vezes, por favor? Ajuda tanto….
    6 de outubro às 14:42 via celular · Curtir · 3

    Vitor Cheregati Ótima discussão! Me fez lembrar desse livro, que fala sobre a tal da autonomia: https://www.nescon.medicina.ufmg.br/…/imagem/3205.pdf
    Ontem às 09:13 · Curtir (desfazer) · 1

  3. passei por tudo isso tbm, já perdi a quantidade de ultrassons q fiz., biopsia. Mas num sei se é um relaxo meu, nunca me desesperei, sempre fikei mto de boa. Não tenho caso na família e minha tranquilidade qnto a minha saúde é mto grande. Positividade !!

    1. Que bom, Gabriela! Espero chegar a essa tranquilidade um dia… E me choca termos que fazer essa quantidade de exames quando sentimos que está tudo bem com a nossa saúde. PRa você isso é tranquilo? beijos

  4. Perfeito! entendo mui bem tudo o que escreveu… fica aqui a minha indignação também. Eu também fiquei em pânico, Bianca, qdo. o médico (acho eu recém formado, pela sua aparência), que diagnosticou na minha primeira consulta, que eu ia me submeter a uma micro-cirurgia, para fazer biopsia, pois o mesmo achou que eu estava com melanoma… afffffffffff tudo absolutamente ocorreu comigo como você relatou… Muito bem, há 2 dias eu retornei ao seu consultório, aonde ele com um sorrisinho de lado, disse ainda bem que não é melanoma (conforme resultado da biopsia)… (legal) Claro! poderia eu ter tido um infarto do miocárdio (mas não sofro do coração), quase me deixei cair em depressão, (o resultado que era p sair em um dia, demorou quase 15 dias) enfim… Busquei o meu lado espiritual também. Tive que acreditar em tudo de bom e do melhor… afinal eu mereço.
    Tá certo que meu convênio não é um dos melhores… Maisssss é com muito sacrifício que eu pago… mas é isso… Campanha Rosa, Política e Industrias… até quando!?

    1. Quando a gente pontua que nossa convênio não é tão bom, parece que temos culpa por passar por esse estresse e por tantos procedimentos desnecessários… Pensa que lindo estarmos todos no SUS, sermos bem acompanhadas e não precisarmos passar por esses exames sem necessidade…

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