O racismo nosso de cada dia escancarado no meu cabelo

Solto e acho bonito. Volto ao espelho e coloco uma faixa. Um pouco mais de tempo e recorro aos grampinhos. “Esse jeito de prender tem uma coisa de negritude, mas é mais preso”, falei na terapia. Na mesma semana, a Maternidade Santa Joana publica um texto RACISTA sob o título “Minha filha tem o cabelo muito crespo. A partir de qual idade posso alisá-lo?” Ah, as sincronicidades da vida… E como a cereja do bolo, nasci no Santa Joana.

Passei anos ouvindo propostas de cabeleireiros para “arrumar” meu cabelo. Arrumar significa alisar ou, no mínimo, “relaxar as ondas”. Minha avó, vítima e algoz do mesmo racismo, prendia o cabelo beeeem puxado pra trás, “pra não parecer essas neguinhas”. Na ingenuidade de criança me perguntava se eu não era mesmo “essas neguinhas”. Obediente, não ousava questionar em voz alta.

E de puxar e puxar o cabelo num rabo de cavalo, nunca tive coragem de soltar o crespo em público. Quando me descobri negra, nasceu o desejo de assumir meu cabelo como uma marca de identidade. Encontrei o Marco Antônio, cabeleireiro incrível, que cortou um black. Detestei! Então ele me ensinou a fazer uns rolinhos, prendendo o cabelo com grampos como se fosse uma tiara, até eu me acostumar com o volume. Nove anos depois ainda não me acostumei. Continuo fazendo os rolinhos diariamente. Diariamente não! Nesses anos, soltei umas três ou quatro vezes.

Com o black liberado, sinto um calor insuportável, não me reconheço com o volume ao redor do rosto e fico desesperada pra prender o cabelo. Desesperada mesmo, não é força de expressão! Começo a suar, sentir taquicardia e uma vontade incontrolável de prender o cabelo. Aí prendo; sinto os músculos relaxarem e um conforto no peito.

Grávida pela terceira vez, imaginava um menina pretinha, com o cabelo bem crespinho pra eu soltar e enfeitar com flores coloridas. Mas a vida me presenteou com uma menina bem branquinha, de olho azul e uma careca de pelugem fininha… Os filhos não nascem mesmo pra dar conta dos desafios dos pais… Minha questão com o meu cabelo é obviamente minha. Mas também é de todos nós, brasileir@s, que assumimos o liso e o loiro como padrão de beleza.

Em 2011, esperava um vôo em Paris quando puxei papo com uma portuguesa. Ela ficou muito surpresa porque eu falava a língua dela. “É a minha língua também, sou brasileira”, anunciei. “Mas como? Com esses cabelos crespos? Toda brasileira tem cabelo liso!” Reparei no mar de mulheres que esperava os vôos pra São Paulo e pro Rio. A portuguesa tinha razão.

30 comentários em “O racismo nosso de cada dia escancarado no meu cabelo

  1. Nossa, eu tinha exatamente a mesma sensação que você quando o meu cabelo começava a crescer um pouquinho e a raiz aparecia. Só agora, já entrada nos trinta, é que conheci uma cabeleireira que realmente sabe fazer o corte que funciona no meu cabelo e como fazer para eu não me sentir super desconfortável com um look mais blackpower. E o engraçado é que gostei tanto que pela primeira vez realmente me sinto lindona com o meu cabelo.

    1. Aline! Será uma coisa dos trinta? Será os tempos que estamos vivendo? Eu tô com o cabelo solto todo dia, bem feliz e achando lindo também ❤

  2. eu acho que no brasil a muito racismo ainda boriço naõ comsigo arumar trabalho e acho que a televisaõ piora muito o precomceito de veria mostrar que a gente é igual mais naõ a novela é a pior coisa para a gente assistir tem muito racismo lá

  3. Querida Bianca
    Fiquei feliz ao ler seu texto. Ele me mostra que a admiração e o encantamento que eu tive com você, com sua alegria, com sua determinação e inteligência não foi apenas pela nossa convivência pequena em um projeto. Texto firme, posicionado, sensível. Como você.

    1. Kátia, querida, que honra e que prazer ler o seu comentário! Muito obrigada.E viva a internet que nos permitiu mais convívio que um projeto 🙂

  4. Adorei o seu texto. A pressão, propaganda em ter o cabelo liso e louro é tanta que vez ou outro nos vemos cedendo. Quando criança, a minha mãe loura e lisa, tentava domar o meu cabelo armado. Dá-lhe trança, rabo de cavalo…da mistura branco, negro e índio quando terminado o penteado, mais parecia uma oriental de tanto que puxava os meus cabelos. Já usei armadão, depois escova, chapinha, alisamento e há uns cinco anos me cansei de tudo isso e adoro o meu crespo. Os comentários não cessam, quando faço escova, aquele que ganhamos quando se corta o cabelo, a minha gerente não aguente e solta: Você fica chique assim..sabe elegante. Respondo: Eu gosto crespo, tem personalidade.

    1. Rosângela, que bom você ter gostado do texto! Obrigada por dividir sua experiência comigo também! Saber que mais gente sente como a gente ajuda, não é?

  5. Oi Bianca,
    Seus depoimentos emocionam pela contundência e pela veracidade. Como tenho o dobro de sua idade consigo dimensionar tudo que você diz em um grau de grandeza elevado a mil.
    Filha de uma família tipicamente brasileira,miscigenada com negros ,indígenas e brancos ao longo da árvore genealógica tenho todas as marcas do racismo sutil, “à moda da casa”.
    Nos anos 70 poucas mulheres iam para a universidade e se eram afrodescendentes menos ainda…
    A universidade pública era território de brancos e de preferência marcados por comunidades de imigrantes…
    Na USP bloco da História e geografia entre 1972 e 1976 ,em um universo de cerca de 600 alunos de noturno éramos 2 afrodescendentes apenas,que transitávamos nas salas de aula e na política estudantil.
    Cheguei na universidade de cabelo alisado e peruca! Depois de 2 anos me libertei e compreendi que os crespos faziam parte de minha identidade e que o estranhamento que pudessem causar nas pessoas poderia ser um bom pretexto para conversar sobre o assunto que era tão velado.
    Procurei um negro na universidade para casar e não achei. Casei com um branco defensor da causa da negritude e de outras causas. Estamos juntos até hoje e temos duas filhas lindas cheias de cachinhos totalmente assumidos. Nossa neta de 6 meses é branquinha e só só tem uma penugem,por enquanto só usa tiara !
    Fico contente que voce e minhas filhas continuam essa história de libertação ! Parabéns pela sua matéria !

    1. Regina, como sou sua fã! Que bom saber da sua história! Minha mãe também foi uma das poucas mulheres negras, além de ser pobre, a ir para a universidade na década de 1970. Obrigada por vir aqui compartilhar sua história e a das suas filhas. Viva nossa libertação! beijo grande

  6. O essencial é invisível aos olhos. Bi, não importa às pessoas q te querem bem a cor,formato, tamanho ou oq for os cabelos, cor de pele, se tem um dedo a mais ou a menos. Cabe a nós nos sentirmos bem independete de padrões estabelecidos. Vc sempre foi e continua sendo linda, sua filha c seus olhos azuis, minha filha e seus cabelos cacheados (sim, ela cabelos cacheados e eu me divirto fzdo mil penteados rs), somos tds iguais no final das contas…pelo menos penso e sinto isso. Bj!

    1. Oi, querida! Pra mim, falar e reafirmar meu crespo é uma questão de identidade, que expressa algo essencial mesmo. Mas não tenho dúvidas da importância da diversidade e que, nas diferenças, somo iguais. beijo grande

  7. Bianca

    Sei bem o que é essa aflição. Cresci ouvindo que meu cabelo crespo era inapropriado, além das piadinhas de amigos de escola. Na vida adulta, dona das minhas decisões (aquilo que achamos que seja independência) optei por viver de cabelo escovado (escova mesmo com secador, pois sempre tive medo de química). E hoje aos 33 anos estou num completo momento de crise existencial. Que raios de independência é essa, vivendo escrava de um padrão? Estou há alguns meses tentando viver em paz e harmonia com meu cabelo naturalmente crespos, às vezes rebeldes demais, mais volumoso do que os outros gostam (sim, os outros é que se incomodam), quando bate um desejo súbito de prendê-lo (pois é, lembram da piada infame da semelhança de cabelo crespo e bandido?). É é inacreditável como essa decisão incomoda o coletivo, sinto o peso do olhar de reprovação das meninas vaidosas. E honestamente, a grande maioria que diz, “ah, mas eu sempre quis ter cachos e às vezes encrespo o meu”, “nos anos tal era moda cachear”, falando dos cachos moldados a baby liss como se fosse a mesma coisa. Santa ingenuidade.

    1. Tatiana, eu já pensei MUITAS vezes em “arrumar”meu cabelo com escova, alisamento, relaxamento. Parece um passo natural pra resolver o “problema” do crespo. Na adolescência, sempre que cortava o cabelo ganhava uma escova de presente. Recebia mil elogios em todo canto em um incentivo explícito de manter aquele cabelo sempre. Mas um bichinho em mim gritava que aquilo não estava certo, que o meu cabelo podia ser bonito mesmo crespo. Isso que você chama de ingenuidade (e acho a palavra bem apropriada) ficou evidente pra mim na reação de uma amiga super querida que há mais de 10 anos tem o cabelo liso, antes com escola e agora com progressiva. Ela não gosta do cabelo escorridão e sempre dá um jeito de cachear as pontas (a la Gisele Bundchen). Outro dia ela conseguiu mais cachos que o previsto e ficou desesperada com o volume.
      Obrigada por essa conversa 🙂

  8. Bianca, seus cachos presos são a mais pura expressão de você, de frente, de costas, de lado, inconfundível….. quando a gente se aceita de forma consciente, seja alisando o crespo, encrespando o liso, nos fortalecemos para mostrarmos quem somos, seja da maneira que for….
    um beijo
    Paula

    1. Obrigada por comentar, Paula, querida. Essa aceitação é mesmo o único caminho pra ser feliz e estar bem consigo mesma. Mas socialmente, como podemos aumentar as chances de meninas e mulheres ficarem feliz mesmo com o cabelo crespo? muitos beijos

  9. Adorei o texto e a reflexão…penso se toda essa questão também não encosta no fato da “grama do vizinho ser sempre mais verdinha…” Loucura nossa de cada dia…
    Pq encasquetamos com o cabelo e não valorizamos o olhar, o sorriso, o gingado, as bacanices que sabemos!?? Junto com a luta contra o racismo e os padrões de beleza impostos, haja terapia…
    saudade de vc lindona da bala chita

    1. Rô, que saudade de você!!!!! E que honra te ver comentando aqui. Obrigada ❤ Sem dúvida nossa percepção de nós mesmas encosta nessa loucurinha que você mencionou. Mas acho importante tentar perceber o racismo presente nessa não aceitação do crespo e do volume no cabelo, não acha? beijo grande

  10. Emocionada com o texto, fazendo várias reflexões, me vi nele várias vezes e tenho que continuar a luta para vencer o tão padrão de beleza imposto, principalmente as crianças que na maioria das vezes não sabe se defender, se tornam adultas infelizes, rotuladas.
    Bjos!
    Sílvia

  11. Bianca, você ē tão linda! Para mim seu cabelo é sua marca de personalidade, nao de etnia. Sempre adorei a forma como voce o prende!
    Eu sempre quis ter cabelo crespo, pois o meu, nunca segurou fitas, grampos, tiaras e nem nada. Nunca armou e sempre ficou ” lambido”. Invejo quem tem cachos! agora, a Nina saiu de cabelo cacheado, pra minha alegria!
    Achei otimo voce por pra fora seus pensamentos, mas há tantas mulheres de cabelos lisos que nao tem sua beleza, carisma e inteligência!
    Defenda suas origens, valorize seus ancestrais e curta o que é tão sua marca registrada! Eu curto muito!
    Termino repetindo: você é linda!
    Grande beijo
    Diva

    1. Diva, muito obrigada! Obrigada mesmo!!! Que privilégio ter você por perto, mesmo virtualmente 🙂 E com muita verdade digo o mesmo: você é linda!

  12. Segue o texto do Santa Joana, que tiraram do ar:

    “Minha filha tem o cabelo muito crespo. A partir de qual idade posso alisá-lo?

    Muitas crianças nascem com os cabelos crespos ou rebeldes demais. Com a adesão cada vez maior às técnicas de alisamento, algumas mães recorrem a essas alternativas para deixarem as crianças mais bonitas. Essa solução, porém, nem sempre é a melhor, pois muitos componentes químicos, que deixam os fios alisados, não são liberados pela Anvisa para o uso em crianças. É preciso ter cuidado na hora de levar sua filha ao cabeleireiro.
    O formol não pode ser usado de jeito nenhum de acordo com a regulamentação da Anvisa. Porém, há opções de escovas que podem ser feitas nas meninas de pouca idade sem causar danos, tais como a Escova de Colágeno, à base de ácido glioxílico, e a escova à base de carbocisteína.
    A dica é que as mães desconfiem de tratamentos que prometem milagres e investiguem os compostos utilizados.”

  13. Eu, que tenho cabelo liso e loiro sofria preconceito na década de 80: seu cabelo parece que foi lambido por uma vaca!!! Que horror!!! Tudo é uma questão de moda tbm…e agora na última década a moda é o liso (pra minha sorte). Mas quando fui pra Itália o negócio foi o contrário…um italiano me perguntou de onde eu era: Brasil. Ele, assustado, falou na maior inocência: mas como, você é branca!!! E aí eu tive que explicar que eu era filha de estrangeiros, como muitos no Brasil…e que aqui não era só um país de negros e mulatos… Parabens pelo seu texto!!! E relaxe quanto ao seu cabelo. Esse problema é o menor de todos…e alise, desalise, solte, tinja…faça de tudo!!! Aproveite a vida!!!!! Seja várias mulheres em uma só!!!!

    1. Lari, obrigada pelo seu comentário 🙂
      Apesar da questão com o meu cabelo, vivo bem com ele! Mas a minha questão é também de outras mulheres… E o crespo no Brasil tem a ver com o racismo que precisamos enfrentar, não é? beijos

  14. Bom texto e triste constatação. Eu acho que escapei por pouco. Minha mãe também quis alisar meu cabelo, quando “pode”. A sorte é que eu já era metida desde criança e dizia que não queria, que gostava dos cachos. Mas já ouvi minha mãe querendo genro de cabelo liso pra “melhorar o da família”. Quem sabe não surja a chance de um dia ter uma filha, menina e bastante cacheada, pra fazer diferente…

    1. E mesmo se sua filha tiver cabelo liso, ela pode olhar e falar do crespo diferente, não é Naila? Que tenhamos mais e mais meninas metidas com seus cachos 🙂

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