Por que só o software precisa ser livre?

Abri o publicador para escrever sobre o terceiro dia com a Bela. Mas enrolei, respondi e-mails, enrolei, xeretei o Facebook, enrolei e decidi mudar o tema do post. Principalmente porque ouvi uma pergunta irônica ontem que mexeu com uma questão interna importante. “Fazendo autopromoção?” OK, racionalmente eu sei que foi uma brincadeira babaca e que eu poderia passar por ela sem nem lembrar. Mas não é o caso… Escrevo desde criança sobre coisas alheias a mim. Estudei jornalismo e adorava escrever reportagens que traziam a voz de outras pessoas. Quando tive um blog sobre maternidade no Planeta Sustentável, falava da gravidez, do bebê, do parto, da alta taxa de cesarianas no Brasil, mas raramente falava de mim. O mesmo vale pros outros blogs com os quais colaborei ou colaboro: dos Ministério da Cultura, do Porto, do projeto REA

Se alguém chegar até aqui, saiba que vou tentar não amolar muito com as reflexões de por que tenho tanta dificuldade pessoal em escrever o que penso, o que faço, o que sinto. É um misto de negar a história individual (apesar de AMAR ler biografias) e uma culpa cristã (de não ser vaidosa, será?) que ainda carrego. Tem problema de autoestima também? Claro que sim! Mas me sinto melhor em escrever sobre a questão social que mais me pega hoje: o machismo.

Tenho o privilégio de conviver com homens e mulheres inteligentes, sensíveis, preocupados com as outras pessoas e em construir um mundo melhor para todos. Mas, na maior parte das vezes, sinto muito falta de ver a construção de um mundo melhor para todos e TODAS. Ressalva essencial para agradecer à Tica Moreno, à Daniela Silva, ao Pedro Markun, à Maria Lúcia da Silveira e ao Gustavo Aniteli que tanto me ensinam sobre a desigualdade entre os gêneros e a importância do feminismo. Mas a pergunta “Fazendo autopromoção?” de um cara inteligente, engajado, admirável, que eu amo, me apresenta mais uma camada de como é difícil ser mulher. Por que eu não posso falar sobre mim? Por que não posso comemorar o passo interno (enorme) de comprar uma bicicleta, sair pedalando por aí e vender o carro? Isso não interessa a ninguém? E mesmo se não interessar, eu não posso escrever por mim? Por que isso seria autopromoção? E se fosse, qual era o problema? Estou fazendo mal a alguém? Não somos livres para falar qualquer coisa?

E aí lembro de tantas e tantas histórias que tem a ver com essa. Em que a cultura precisa ser livre, o software precisa ser livre, mas as mulheres não. Peço licença à Daniela Silva para contar uma história bem recente (apesar de ter uma coleção delas) e expor um pedaço do debate que apareceu na lista aberta da Transparência Hacker. Tudo começou com um motivo excelente, que resultou na excelente capa da Folhateen da semana passada, com a voz e a fotografia da também excelente Lívia Amorim:

A Dani recebeu o e-mail do editor da Folha e repassou para a lista. Quem quiser, pode ler a história toda, aqui publico minha edição.

O cara explicava: ” (…) Estou apurando uma reportagem sobre garotas hackers, aproveitando o gancho do lançamento de logo mais do filme baseado na série Millwnium, que tem a Lisbeth Salander. Gostaria de falar com garotas brasileiras que são hackers. Coisa simples. Entender porque fazem, como é o cotidiano, como entraram na atividade etc (…)”.

Cinco pessoas responderam e a conversa rolava bem até que um cara (gente-boa, inteligente, ativista do Software Livre e muitos outros adjetivos positivos) cagou: “Se a menina, qqr que seja e para variar, estah querendo ser desejada:  http://www.orkut.com/Community?cmm=1921“.

A resposta da Dani não podia ser melhor: “Adoro a capacidade que algumas pessoas em comunidades hacker têm de produzir novos olhares sobre as coisas, quebrar tabus e preconceitos, e assim conquistar para todo o mundo a liberdade que elas pregam para o software. Afinal, falar em “toda e qualquer mulher + escolha seu complemento” é tãããão século 15… #ironia”.

Minha revolta seria menor se a conversa tivesse parado aí. Mas ele continuou: “:* alias, vc usa linux, neh Dani? 😉 ”

A Dani usa Linux. Eu uso Linux. Muitas mulheres usam Linux. E essa é uma decisão POLÍTICA e/ou TÉCNICA das mulheres, assim como é uma decisão POLÍTICA e/ou TÉCNICA dos homens.

O objetivo primeiro de qualquer mulher é ser desejada. E falar de si mesma é autopromoção. Se essa é a visão sobre as mulheres na bolha da liberdade, da colaboração e da transformação do mundo, o que eu estou fazendo nela? E pra onde posso ir?

18 comentários em “Por que só o software precisa ser livre?

  1. Bianca, seu post está genial! Às vezes a gente (digo por mim) internaliza um monte de “o que será que vão pensar” e deixa de fazer várias coisas legais por isso. [eu tava meio assim de comentar de novo, “pootz, devo estar parecendo puxa-saco já…”]. Mas foi justamente essa superação “do que vão pensar” que fez vc postar os deliciosos relatos sobre a Bela e suas aventuras na cidade e também fazer esse post-protesto sobre o machismo no mundo do software livre e na cultura digital em geral.

    Enfim, coragem e ousadia inspiram coragem e ousadia. Comento para citar o post da Bruna Provazi “Liberdade, ou é para tod@s, ou é tudo por nada” (http://brunaprovazi.wordpress.com/2011/09/16/liberdade-ou-e-para-tods-ou-e-tudo-por-nada/) sobre o tema do machismo na cultura digital relatando impressões do debate no auditório do Ibirapuera com a Manuela D’Avila, a Ivana Bentes, o Lessig, o Gil e o Samadeu. No post, inclusive, você é citada por ter feito um protesto em uma fala do Claudio Prado(!).

    Bem, termino com: continue escrevendo neste blog, porfs! Coragem e ousadia inspiram coragem e ousadia.

    bj enorme,
    Mel

    1. Querida, obrigada pela coragem e ousadia em comentar que me inspiram muito também. Fico impressionada como temos tantos monstrinhos a vencer todos dias para conseguir colocar nossa voz na roda! Este post da Bruna é sensacional e aquele dia no Auditório foi dos mais revoltantes pra mim também. E por falar em outro dia marcante, será que alguém escreveu sobre a linda mesa de abertura do Fórum da Internet do Brasil, composta por 14 homens e 1 mulher? Juro que quando cheguei e me deparei com a cena tive vontade de dar meia volta…

  2. Compartilhado!
    É bom ter bons argumentos pra levar adiante, porque frequentemente parece “bobo” ou qualquer “ismo” quando apontamos essas marcas sutis (pra quem pratica) de preconceito de genero…

    Massa, Bia 🙂

    Emprestei ontem, pra um casal de amigos que me perguntaram se era tudo isso mesmo, aquele dvd “mulheres invisíveis” que você me deu… vamos ver o que repercute.

    bjs

    1. Tica, como assim eu não lembrava do seu blog? Que falha! Adorei o texto e ele me ajuda muito a aprofundar as questões que tenho levantado pra mim mesma… Vou devorar os outros posts depois falamos mais, ok? Obrigada 🙂 beijos

  3. Oi, Bianca

    Gostei muito do post. Muitas vezes, o que afasta uma mulher de um espaço é uma exclusão sutil, anos depois a gente nem se lembra por que se afastou. Não é o caso da THacker, que tem uma comunidade bastante crítica, que não deixa essas “sutilezas” passarem em branco, mas é importante registrar. Eu escrevi um post uma vez, citando a Gina Trapani e as reflexões dela sobre machismo em comunidades de tecnologia e, entre as respostas que recebi, estavam clássicas como “está esperando arrumar um marido rico”. A proporção de mulheres ainda é baixa e acredito que é importante para a emancipação das mulheres dominarem a tecnologia, assim como é importante para o software livre atrair mais mulheres. Conte comigo para as conversas sobre o tema 🙂

    abraços

  4. bm, nao disse que o ambiente é uma maravilha. Só disse que entre os hackers que eu conheço costuma ser mais inclusivo do que no resto dos lugares. Taqui a entrevista da Cátia Kitahara http://blogueirasfeministas.com/2011/12/entrevista-catia-kitahara/, onde ela diz isso: “os meninos são legais” – não são todos que se comportam dessa maneira babaca. Claro, é um ambiente para homens ainda. Bem como a própria internet. Mas estamos ganhando espaço. E acho que combatendo vamos chegar a mais uma trincheira, não a um acordo. Mas, sempre minha experiência com o SL pode ser diferente das outras…

    Ah, e a propósito: eu usava mac e ninguém me recriminou por isso… Quando eu troquei de sistema, tive ajuda e incentivo de todos os lados, sou muito grata por isso. Mas, né? Claro. Babacas existem em todas as listas =D

  5. Oi Bianca,

    ótimo post! Passei batido por essa thread lá na thacker, mas tenho acordo que merecia um post sobre isso e achei o tom do post condizente!

    De fato em “grupos ou comunidades alternativas” vemos muito discurso que nem sempre se verifica na prática.

    No Movimento Estudantil vemos todo um discurso de inclusão (social, racial, gênero, opção sexual[1], etc) que por vezes não se efetivam na prática.
    Por exemplo, a prática do movimento estudantil quase sempre é excludente economicamente ao demandar uma dedicação que só é possível para quem faz curso não-integral e/ou não precisa trabalhar.

    Eu vejo hoje uma maior preocupação com a questão de gênero, comparativamente às outras, mas ainda vemos muita coisa errada acontecendo/sendo dita, muita incoerência. Ou às vezes não sendo dita, visto que nos debates de gênero são raras as participações masculinas.
    Nos movimentos mais tecnológicos a discussão de gênero passa bem longe. Pode até ser um ambiente mais inclusivo, mas, infelizmente, ser “mais inclusivo” significa partir do princípio que ele é exclusivo e, além disso, os “tecnologistas” não são chegados em debater “esses assuntos do passado” – cansei de ouvir isso, que essa questão de gênero é coisa do passado.
    A questão racial então nem se fala, o debate está MUITO lá pra trás.

    Acho que os “tecnologistas”, o povo da “cultura digital” precisava entender de fato que o mundo real continua existindo, e os pré-conceitos também, e continuam fazendo uma GRANDE diferença.
    Assim como nós não podemos fugir das discussões e debates políticos relativos ao Estado – e a Thacker está ai pra mostrar que podemos de fato fazer diferença, SE quisermos; também não podemos nos enganar e fingir que não existem classes e grupos sociais com distintos espaços.

    Aliás, poderíamos tentar retomar aquele debate sobre a participação feminina no mundo digital hein! Que tal já começarmos a organizar algo para o dia da mulher? Podemos tentar algo um pouco maior este ano!

    Um Grande Abraço!!

    [1] Nunca sei qual é o melhor termo a ser utilizado, acho que “opção sexual” não é o melhor deles, mas não lembro qual é o mais utilizado pela militância do movimento.

    1. Diego, que EXCELENTE ler seu comentário. Obrigada! Me tirou o peso de pensar que generalizei a afirmação de que todo cara do Software Livre é machista. Não acho isso, não disse isso, mas foi lido assim aqui em casa 😉

      1. Bianca, eu não achei que você generalizou para todo cara do SL, mas EU digo que a grande maioria não quer saber desse debate, e isso por si só já faz com que a situação de desigualdade se mantenha, o que pode ser considerada uma posição machista (por ser cômoda, visto que em geral não é o homem o oprimido!).

        Mas os homens também não percebem o quanto são oprimidos (claro que é bem diferente da situação com as mulheres, acho que são opressões distintas e que não devem ser comparadas!).
        Eu que estudo numa escola de engenharia muito elitizada e tradicionalista sei o quão perversa pode ser a opressão para com os homens, que devem manter a imagem de “viris” (traduzido por idiota, ogro, sem noção, estúpido, brutamonte, machista e qualquer outra coisa que possa se enquadrar junto desses adjetivos). E o pior é que a grande maioria não percebe o quanto é oprimida, não percebe que grande parte de seus comportamentos é ditada pela opressão, e não pode uma escolha individual.

        Assim como no “mundo do trabalho” muitos homens tem que cortar o cabelo e mantê-lo curto porque a empresa pede “boa aparência”… (I HATE THAT!)

        Enfim, temos sempre que estar antenados para essas questões e dispostos a levar puxões de orelha quando fazemos/falamos besteira!

    2. Vamos marcar uma reunião sobre isso? Comecei uma conversa com a Tica Moreno, da SOF. Vou escrever um e-mail pro povo que foi na conversa do 8 de março na CCD e mais a Tica, tá bom? beijos

  6. Eiiii Bianca, curti o post, bastante. É preciso discutir essas relações quando se fala de pertinência à grupos, labels e outras semânticas de redes que envolvem poder e descentralização de poder.

    Mas achei bastante combativo. Não dá pra generalizar isso aí não. O Mundo do SL é bem inclusivo (bem mais inclusivo do que o de fora) e muito menos machista. Vamos lá, o cara é um babaca, mas, é um caso bem isolado. O mané é um babaca. Mas ele não é maioria. As comunidades hackers geralmente tem programas bem bacanas para a inclusão das mulheres e o ambiente apesar de machista costuma ser bem inclusivo.

    1. Yaso, ele é bem combativo sim. Mas não acho que falei de todos os hackers ou todos os homens da comunidade de software livre. Mas falei da minha experiência e do que está perto de mim. E pra quem está distante deste universo seu comentário é bastante importante. Obrigada!

    2. Eu tenho uma impressão diferente… na última conferência da PythonBrasil, rolou uma palestra sobre diversidade na comunidade Python. O Steve Holden (palestrante) mostrou um levantamento indicando que há menos mulheres na comunidade que na indústria de software.

      Não tenho os dados nem sei se aplica ao Transparência Hacker, mas isso pode significar que nós (de comunidades de software livre) discriminamos mais que os outros.

      1. Triste realidade que já tem algum indicativo de mudança a partir da percepção de vocês. Isso dá muita esperança Alexandre! Tamo junto 🙂

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